Interrogas-te onde erraste. Qual
foi o erro que te fez traçar este caminho. Não que não o queiras: apenas não
tem vida – a tua vida. Tentas enterrar o passado, tudo o que o faz retornar.
Mas se o passado te faz quem és como podes desamarrá-lo de ti? Olhas as tuas
mãos que tanto se tentam agarrar ao presente e já nem pensas no futuro porque
isso é muito adiante de ti. Tudo escorrega da palma da mão. Olhas os dedos que
antes costumavam estar amarrados a outras mãos e sentes que não há ninguém que
os alcance. Que os façam adormecer apenas com o toque. Que faça todo um arrepio
começar desde as pontinhas mais mortas de ti. Como podes viver o presente se
tudo o que desejavas era estar no passado? Não existe. Sabes que tens de seguir
em frente. Que não é possível viver as coisas novamente, porque já foram
vividas – os momentos nunca são repetidos. E quem sabe se a cabeça não alterou
a realidade e a fez muito melhor? Mas tudo o que sei foram as imagens que
ficarem e a saudade que por elas se imana. Tudo o que resta é o que houve. E
como se pode afastar as memórias tão maravilhosas que te fazem perceber que a
vida pode ser completa? Como fazer de conta que tudo está bem se agora sabes
que existe falta: ausência do que te fazia verdadeiramente sorrir. Ensina-me a
viver sem o que te fez viver pela primeira vez.
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
domingo, 13 de julho de 2014
Estás em todo o lado
Tenho medo de escrever o que me vai na alma. De perceber o
tamanho do dano causado. Custa olhar para dentro e ver tudo estilhaçado.
Perceber que não tem reparo. Mas ter um exterior inteiro para continuar a vida.
Mas como se continua quando se sente a ir todas as forças? Quando quem te dava
forças, e segurava aquele impulso de tristeza para bem longe, já não está? Como
se aguenta todos os medos atingirem-te todos de uma só vez? É o não acreditar
na capacidade de superação. É uma força que parece tão fraca. É desejar apenas
o conserto por quem criou tudo isto. É querer aquele abraço: o abraço de
pertença ao infinito. Sentir que tudo ainda lá está. Que o amor não se evapora,
se expande. É querer provar que a luta é mais recompensadora do que as
cicatrizes associadas à batalha. É mostrar-te que somos mais felizes juntos do
que separados. É fazer-te entender que sei que vales a pena, que és bem melhor
do que tu vês.
Não consigo provar-te nada disto – tu não permites. Se calhar
estás bem melhor sem mim. Talvez fosse mesmo isso que precisasses. Apesar de
ser tudo aquilo que eu não preciso. Como se luta por quem não quer lutar? Como
posso amar-te desta forma se o que sentes não é suficiente? Como posso
reduzir-me ao mínimo e lutar pelo que resta?
É esta saudade que quase me mata toda a vez que respiro. São
as lembranças constantes em todos os lugares. Estás em todo o lado, porque
estás em mim. E eu não consigo arrancar-te de mim.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Abandono
É o coração que
orienta as tuas ações. O sangue que impulsiona os movimentos corporais. E está
a mente como moderadora dessas consequências. Procura-se o equilíbrio, mas, na
verdade, encontramo-nos sempre mais no desequilíbrio. É aí que nos percebemos limitadores
dos nossos atos; dos nossos sonhos. A vida resume-se aos momentos de decisão.
Aos caminhos que escolhes percorrer consoante as crenças. Os princípios que
regem a direção do teu olhar. E há momentos que duvidas de tudo aquilo que já
fizeste. De tudo aquilo em que acreditas. De tudo o que és. É aterrorizante
essa sensação de abandono de ti mesmo: da tua vida. Esse ser livre de tudo
aquilo a que se prendeu. Dos abraços que retiraram de ti um pouco da alma.
Aquele amor de pertença. A sensação permanente de preenchimento.
-Sabes que
estarei aqui para sempre, Mara.
Aquela promessa!
Falhas não para com ela, mas para contigo. Já não sabes o que és. Como podes
garantir essas palavras que foram ditas por um outro? Um outro eu que, agora,
desconheces?
Olhas o espelho
e nada reflete. Um rosto expressivo de alguém que nunca viste. Uma alma perdida
num corpo sem orientação. Sentes os passos de corrida (interiores) mas
manténs-te estático. Observas tudo o resto e tudo move. Nada espera por ti.
Nada esperará se não decidires avançar. Aí tentas! Nada se rende. Nada se
entrega. Percebes que és tu que fazes o que és. E não o mundo - porque esse nem
se lembra de ti quando tu te esqueceste.
Toca-me aquela
mão sobre o fim das minhas costas.
-Eu estarei
sempre aqui até mesmo quando tu já não quiseres que eu esteja. Mesmo que tu não
saibas mais quem somos. Eu sei que fomos. E isso já é parte da nossa
existência.
Agarrei-a com
força e tudo voltou ao seu lugar. Não era que eu só soubesse ser com ela. Mas
era ela que me devolvia à realidade. Que expelia os sentimentos de loucura.
As sombras de
quem somos quase que nos sugam. Ela é a luz que não me permite ir. Que não me
abandona para o ser mais obscuro de mim.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Flocos de Neve
E se eu te
disser que não sei como é que tudo começou? Que já não sei de que sou feita nem
que traços me caracterizam? Ainda tentarias perceber o que o vento levou de mim
e o que restou? Tentarias conhecer o meu verdadeiro eu debaixo de tantas
camadas de histórias? Cicatrizes que mostram o que a existência me fez. A
realidade que tingiu o sonho de muitas outras cores. Uma mistura do que é e não
é. Algo que já não dá para decifrar e acreditar pela confusão em que se tornou.
Uma vida que se vive sem a adrenalina do desconhecido que está por vi. Apenas o
caminhar, só, pelas ruas que já conheces. Por essas lembranças que não permitem
um futuro de possibilidades. Que corta tudo o que poderia ser rejuvenescedor. Que
te faz ser a frieza da neve. Não deixa trespassar o calor de um abraço ou de um
sorriso sincero. Apenas uma existência perdida no interior de tantas outras que
te abandonaram. E vês, sempre, os flocos de neve (antigamente símbolo de magia)
a apoderarem-se do coração. Fica tudo isso. A permissão de ser sem sentir.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Segredos da noite
Sei que dói. Que
o vento aconchega a mágoa ao que resta de ti. Que as cicatrizes não precisam de
ser visíveis para saberes que existem. Simplesmente sentes o peso que te fazem
carregar todos os dias. Caminhas com as lembranças que (ainda) retiram um pouco
de ti. Elas desfazem as cores em cinzas do futuro. É como se a segurança fosse
completamente instável. E as forças vão se desvanecendo com o olhar fraco que
pondera as possibilidades existente. Não há quem te retire dessa montanha russa
de interrogações. Quem forneça respostas tão simples como um abraço. Não há
quem entenda a história que esse sorriso esconde. Nem quem veja a escuridão do
olhar que continua a enfeitiçar estrelas. És apenas tu e os segredos da noite.
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