segunda-feira, 25 de abril de 2011

Abismo

Sorrio por lembrar apenas teu rosto. Cada traço que veste a pele que vicio. É o aroma. O perfume que proclama. Os músculos contraem-se em sentido de permissão. A mente impede. O respirar. Aquela sensualidade que se liberta. Luto contra todos os estímulos que gritam em mim. Contenho-me para não me perder. Para não largar. Para não esquecer o que me é incorrecto. Permanecer encurralada por mim. Estou no desequilíbrio. Um sopro me pode fazer cair no abismo da felicidade. E será que esse abismo trará o sentido pelo qual canto? O erro. O saber-me consciente da inconsciência em que me deito. Não durmo nela: levito. O sonho derramaria fantasia e a vontade a concretizar. Olho: não encontro o fim. Inclino-me mais. A morte é lenta no breve tempo que vive. Agora: estou a voar.


domingo, 24 de abril de 2011

Esconder-te


É a desejar que este sentimento seja falso. É sentir. É pestanejar. É morrer por se tornar mentira. Desejar em demasia mentir-me. Mentir-te. Esconder-te do mundo. Fechar os olhos e empurrar-te. Desconhecer esse caminho – perder-te (sem te encontrar de volta). Esquecer-te mais uma vez – desta vez. Conheço a força que não possuo. A destreza de saber-me incapacitada de o fazer. Agarro as memórias. Seguro todo aquele cheiro; toda aquela sensação no presente. Fixo-te em mim. Abro a mão: não voas. Eu quero. Eu deixo-te. É sentir-me feliz por ver-te em mim. Por saborear-te em meu coração. É conhecer-te melhor que minhas palavras. O arrepio em que te és no meu corpo irado. É-lo. Permito libertar-me. Ordeno não te largar. Não fazes parte do mundo que calco. És o mundo em que voou.

domingo, 3 de abril de 2011

Folha






É na folha que te perdes.
Entre as palavras da minha alma,
Reflecte-se a tua ignorância
Como um espelho chuvoso.

Na caligrafia vê-se a incoerência:
O erro trémule de te não querer.
E bebo essa mentira
Como cálice da verdade.

A fissura das letras em íris
Como bolha de sombra
Que esconde o que és
No que não existe.

O eu enterrado no solo da inconsciência.  

Palavra

A palavra que cospes
Como quem nada diz,
Rasga a pele cerrando
A lágrima no abstrato envolvente.

E é dessa inconsciência
Em que nasces desnudo
Que se absorve a dor
Que me profundo.

Num beijo me despeço
De ti e mim em conjunto.
Dissolve amor em lentidão
Essa carne de paixão.

A gota que escorre
Na veia artística,
Corta o luar -
Vida sentimentalista.

No chão me deito
Sob a nuvem pensante.
Presa no saciável peito
Cala-se a ordem na voz.

Nessas letras salivadas
Desce a pena que te tenho.
Nunca por ti fui amada,
Na morte me detenho.

E vai a alma,
Como luz de toda a constiruição.