domingo, 20 de novembro de 2011

Memórias do coração



 
Ver-te nesse sol que me concerta. Respirar a felicidade. Senti-la entrar na sombra e ofuscar o negro tingido. Leio as memórias do coração. Os meus olhos nos teus. Ver-te sem nevoeiro. Olhar para dentro de ti: conhecer-te. E tenho a carícia a agradecer as lágrimas que se foram. E vive-me o calor de sorrir. Sorriso verdadeiro. Meu. Teu. Nosso: nos lábios um do outro. Espelha-se as conversas: a vontade de presença. E estou a sorrir ao ler-te de novo. Ao saborear nos lábios o alívio. Ao abraçar no olhar o amor. Ao sentir o coração ressuscitar de felicidade. Sorrio pelo sorriso que nos pertence. Pela beleza de te ter comigo. Estás no coração que é aceite pelo pensamento.


sábado, 19 de novembro de 2011

Lágrimas Cravadas


Estou neste quarto à espera que apareças. Sonho pelo retorno da vida que já tive. Espero-me – na ponta do passado que não posso alcançar – o teu abraço. Quero sentir na mão o carinho do teu rosto. Espelha-se o que fomos numa projecção esbatida. Há o frio que se entranha nos lábios. O tremor de saudade perpetua-se na alma. Trespassa-se a confusão no corpo. Vive-se em linhas descontínuas: sem planeamento. Tenho apatia no amor. Estou na competição: a corrida que me vence o ser. Deitada nas lágrimas cravadas penso na cumplicidade. É no andar da combinação de inesperados que me desconheço. Fui a reflexão dos erros. Quero-me morta. Separada da solidão. Ser levada na canção da noite eterna. Voar no deslumbre da inexistência. Conseguir a totalidade da inconsciência: a festa das sensações. Desce – pelo véu que me veste a nudez – a vida. Trinco a ambição: sangra o tempo no olhar. Está estancada a visão. Presa à profundidade desconhecida que me fiz.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Mentira em verdade


Deixo-me invadir pelo negro das tuas palavras. Há o sorriso nos lábios que não o sinto. Estou aqui: presa a mim. A uma voz que pretendo esconder. Quero correr deste coração que me fragmenta – deixar de sentir. De saber-me pensadora: inconsciente da tua falta. Tenho o chão a mover num balanço incessável: é a alma a morder o fosso que me faz viver. As mãos não mexem para um futuro sonhador. Vejo o presente em representação constante. Sinto-me figurante na personalidade que se deseja. Recebo ordens que condenam as acções. Que induzem um comportamento falacioso. E estou envolvida por campos lacrimosos. Um caminho que me faz sofrer ou o lado que assumirá todos os erros: aceitará a verdade que é obrigatoriamente a minha mentira.

domingo, 13 de novembro de 2011

Estaca perdida na alma


Como hei-de idolatrar-te se não estou mais aqui? Caminho parada. Sempre que regresso encontro-me no mesmo ponto: no estado de insuficiência. A dor leva-me à doença: estou mentalmente perdida. E tenho o buraco: o tamanho de mim feito em fosso. A incapacidade de transpor-me. De deitar-me no leito do que fomos. Estou de pé, a deixar estancar o sangue. Isso seria, por ordem de outrem, a minha salvação. Mas há sempre a gota que me arranca a voz. Tanto tempo nesta morte sentimental. E tenho o coração que já não se ouve: velocidade reduzida. As lágrimas vivem-se - é o facto que me faz real. A mão olha-se no tempo passado. Recordo os risos. Os beijos que voaram. E a noite descia pelas nossas peles enquanto a luz se infiltrava. E tudo muda em mim: a personalidade descarrega-se em ventrículos conturbados. Não controlo o que de mim vocifera. E querer-te saber só dentro do sorriso. Estou em estado de dormência. Tenho a estaca perdida na alma. Os olhos residem na linhagem de inundação. Acções que ficaram por se ser gente. Estão os pés no medo da concretização. Vamos apreender com os desacertos. E aqueles que já nos viveram nos braços são intrínsecos a nós. O tremor atinge-me. E vai voltar. E estou a ir. Estou, de novo, na profundidade, que já não me sou.      

sábado, 5 de novembro de 2011

Coração Estilhaçado


Está-me a saudade embrenhada no olhar. O peito túrgido de lágrimas – já não se falam. Vive o silêncio como condição natural: melhorada. Estou eu na personalidade do mundo que já nem conheço. Descrevo as falácias em que me deito – são o esconderijo dos sentimentos. Recolho o coração quando olho a alma. Espelha-se uma névoa de interrogações. Um estado já esterilizado: morto. Faço esquecer a memória (pelos instantes que são de minha ordem). E sinto o mundo virar-me as costas. Já desaprendi a acreditar. Estou em coração estilhaçado para a existência.