Interrogas-te onde erraste. Qual
foi o erro que te fez traçar este caminho. Não que não o queiras: apenas não
tem vida – a tua vida. Tentas enterrar o passado, tudo o que o faz retornar.
Mas se o passado te faz quem és como podes desamarrá-lo de ti? Olhas as tuas
mãos que tanto se tentam agarrar ao presente e já nem pensas no futuro porque
isso é muito adiante de ti. Tudo escorrega da palma da mão. Olhas os dedos que
antes costumavam estar amarrados a outras mãos e sentes que não há ninguém que
os alcance. Que os façam adormecer apenas com o toque. Que faça todo um arrepio
começar desde as pontinhas mais mortas de ti. Como podes viver o presente se
tudo o que desejavas era estar no passado? Não existe. Sabes que tens de seguir
em frente. Que não é possível viver as coisas novamente, porque já foram
vividas – os momentos nunca são repetidos. E quem sabe se a cabeça não alterou
a realidade e a fez muito melhor? Mas tudo o que sei foram as imagens que
ficarem e a saudade que por elas se imana. Tudo o que resta é o que houve. E
como se pode afastar as memórias tão maravilhosas que te fazem perceber que a
vida pode ser completa? Como fazer de conta que tudo está bem se agora sabes
que existe falta: ausência do que te fazia verdadeiramente sorrir. Ensina-me a
viver sem o que te fez viver pela primeira vez.
