Tenho medo de escrever o que me vai na alma. De perceber o
tamanho do dano causado. Custa olhar para dentro e ver tudo estilhaçado.
Perceber que não tem reparo. Mas ter um exterior inteiro para continuar a vida.
Mas como se continua quando se sente a ir todas as forças? Quando quem te dava
forças, e segurava aquele impulso de tristeza para bem longe, já não está? Como
se aguenta todos os medos atingirem-te todos de uma só vez? É o não acreditar
na capacidade de superação. É uma força que parece tão fraca. É desejar apenas
o conserto por quem criou tudo isto. É querer aquele abraço: o abraço de
pertença ao infinito. Sentir que tudo ainda lá está. Que o amor não se evapora,
se expande. É querer provar que a luta é mais recompensadora do que as
cicatrizes associadas à batalha. É mostrar-te que somos mais felizes juntos do
que separados. É fazer-te entender que sei que vales a pena, que és bem melhor
do que tu vês.
Não consigo provar-te nada disto – tu não permites. Se calhar
estás bem melhor sem mim. Talvez fosse mesmo isso que precisasses. Apesar de
ser tudo aquilo que eu não preciso. Como se luta por quem não quer lutar? Como
posso amar-te desta forma se o que sentes não é suficiente? Como posso
reduzir-me ao mínimo e lutar pelo que resta?
É esta saudade que quase me mata toda a vez que respiro. São
as lembranças constantes em todos os lugares. Estás em todo o lado, porque
estás em mim. E eu não consigo arrancar-te de mim.

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