domingo, 24 de novembro de 2013

Sanidade


Vejo que ninguém me cerca. Estou sozinho na rua. Sinto que posso gritar as entranhas e ninguém ouvirá. O céu está claro em oposição à minha alma. Não era que estivesse revoltado com o mundo: era comigo. Portanto precisava de divagar. Caminhar entre as questões. E ver os locais que me fizeram sentir a felicidade e aqueles mesmos que ma roubaram. Irritava-me os namorados e a respiração presa um ao outro – já não sabia o que isso era. Talvez o erro fosse meu em não tentar em demasia. Mas não queria pressionar. E lutar? Por quem através do silêncio pede distância? Sempre disse que tentaria resolver as coisas: que não percebia porque é que as pessoas complicavam tanto os relacionamentos ou aquilo que sentem. Agora percebo! Não é fácil enfrentar o que o coração teima em falar. Dói expor tudo o que sentes sem teres alguma previsibilidade. É o desconhecido que corta o ar e a esperança. E saberes capaz de ter o futuro sem essa pessoa. Então sentes que é mais favorável continuares nessa dor que te torna menos humana do que perderes quem te dá um pouco de sanidade (no meio de tanta loucura que te faz sentir).

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Poema

Poema (ouço) na tua voz. Tenho todas as palavras que não estão ditas encravadas no coração. O silêncio corta-me o ar. Fico presa àquelas paredes que me esmagam. Recordo-me da cama: do cheiro dos lençóis. Do meu corpo quase a cair sobre o teu. Daquela entrega que se fazia. E eu sabia que o queria mais que tudo. Sentia os nossos corpos gritarem um pelo outro. Sentia o coração pertencer-se pela primeira vez. E estava louca por ti como nunca senti que poderia estar. Derrubei o muro dos medos e dei-te o sabor dos meus lábios. Compreendi o porquê de me render ao teu olhar. Ele é a profundidade da tua alma. E tivemos as mãos a sentirem todo o nosso ser. A honestidade ditava os toques. E no respirar sentia que não me querias soltar. Arrepiava-me a sensação de ser demasiado doloroso afastarmo-nos. Ao inspirares-me o cabelo percebi que me arrancavas a essência. Sabia que me possuías com ânsia. Os teus braços prendiam-me como se me quisesses ter agarrado já ontem. E eu sentia-te sem pensar onde aquilo nos levaria. Tínhamos deixado de pensar: escolhido ser. Pela primeira vez desde sempre permitimo-nos sentir: sermo-nos.
Hoje olho-te e tudo parece uma mentira. Mata-me a indiferença que retribuis das minhas ações. Sinto-me a gelar e sei que não sou capaz de recuperar. Passam os luares que tanto amava e agora espelha-se a solidão das lágrimas. Sangra (todos dos dias) a separação que se fez. Tento sorrir para enganar a sociedade que me cerca. Tento ser-me, mas levaste a alegria que foi em ti que abracei. Fiquei sem os suspiros que te admiravam. Ficou no olhar a incompreensão. E no rosto permanece a dor de quem já não aguenta sentir-se tão pequena por gostar-te tanto.
Sei que mergulhei fundo demais. E já não consigo voltar à superfície. Não agora que não estás lá para me alcançar.

Arde o que os outros viam: o poema.