Estou aqui como quem morre sabendo-se mentira. Condeno este sentimento para não se revelar. Afogo-o dentro do silêncio que me vive. E sei-me incapaz – oculto-o. Ignoro toda a voz e escrevo outra. Uma que dito repetidamente para tornar-se certeza. Repito toda a farsa para ser real. Não quero ver projectada toda esta fantasia. Ela só existe no coração. E a cabeça tem de ordenar o sepulto do declínio. Dessa entrada para um novo amor.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Lágrimas da verdade
Vês a vista. Está ali o rio que te beija os pés. A água fria arrepia o espírito que em ti vagueia. Sobe-te aquela sensação: a falta de estabilidade. Molhas-te para congelar os sentimentos. Queres ser dura – mais do que é possível. Desejas a folha seca nas lágrimas da verdade - esse é o lençol mais pesado. Aquela dor que se expande no vidro que não se quebra e te fura o ser. O sol escalda-te a culpa. E o luar lembra-te da sina. Não irás lutar contra isso? Caminhas sobre as razões plausíveis da mente. Crê! Constrói-as – faz-te escravo delas. Sê livre prendendo-te. Vê-te capaz de voar para o deserto e a tristeza do conhecimento. Aprende a viver nesse mundo (na realidade).
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Sem o último sorriso
És lutadora. Vês-te assim no momento: naquele momento. Quando o perigo te cerca a visão foges. Corres de ti. Escondes-te dentro do coração. Estás no interior: na nascença da melodia que te codifica. E és-te tão absorta. Fraca. Medrosa como um olhar que se vê sem vista. Esqueces (mais que por ti própria) de te seres. Perdes a sensibilidade de tocares na mente. E mais que um rodar, mais que pisar descalço, caminhas sem aparente revisão. Vives o teu personagem. Escreveste-o sem rascunho: a tinta permanente. Não corriges as lacunas – esconde-as com o luar que as embeleza. Fazes-te o esconderijo do sonho. Uma miragem que não se torna tua. Choras, em memórias passadas, o presente. E cai-te o tempo pelo corpo. Não limpas, escorre-te a saudade. Mais que isso: nasce pela pele perdida o rancor de seres o que não admites. De seres fraqueza. A incapacidade de te fazeres humano. E sabes que o serás em constante longitude. Feita da falta de coragem para a sobreposição do mundo. Essa é a regra da salvação. Tu matas-me sem sorrires uma última vez.
sábado, 20 de agosto de 2011
Sou detentora desta insuficiência
Visto-me dessas tuas ténues palavras. Entrego-me à personalidade que preconizas. Mas eu sou mais. Mais do que tu podes ver - não consigo alcançar. Falta-me estofo. Falta a coragem para ser-me gente. Ser-me sol da voz nas trevas. É no frio esculpir desta alma que quebro tudo o que já não me sei. São tantas definições - erros e correcções. Sou fraca. Estúpida ao ponto de deixar de acreditar. De deixar de ver-me pelos meus olhos. Ando e sou prisioneira da tua avaliação. Os passos sabem-se moles da instabilidade que criaste. Foste tu. Não te deito toda essa culpa. Eu sou detentora de todo este mal-estar. Eu deveria ser capaz de fazer-me ouvir. De abençoar as ideias e as palavras que se libertam do interior vivo em mim. Agora sou. Agora sei. Desiludi-me. Não por ti. Por mim. Eu existo tanto quanto tu.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Tornas-te cega
É esse rasgo. O rasgo da tua vida que se deita na minha. E debruço-me nessa margem: na que não conheço nem sei o que virá - são duas películas que se solidificam. Há a protecção que é exercida entre nós. Cuida-se de (quase) tudo - as aparências em excesso. Fica desamparado o que de mais vivo há em ti. Nem a alma que o deseja consegue. Só tu o podes fazer. Mas esqueces-te. É mais simples. Há sempre uma facilidade maior em fechar os problemas. Em tornares-te cega. Mas o coração não aguenta. A chuva esmaga-o; devora-o a vida. Mas quem o degola és tu. Se voltares a respirar - nem como suspiro de renascença - ele responde. Tu és o estímulo. Se andares presa ao declínio nada te separa. Nada te ajudará. Só tu te podes salvar. Enquanto tu de vida fores feita terás sempre um guardião: o teu coração.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Em braços: um abraço
É dessa réstia de tempo que nasce a vida. Num segurar. Num apertar de vontades. E sei o nada. Sei o tudo que me esconde a vida. Num abraço. Um ficar. Permanecer contigo. Sentir um chão; um tecto: sentir-me segura. Em braços: um abraço. É mais que isso: é na voz. É na gente que dele se faz e nele se preenche. E é nele: no abraço - onde estás e onde ficas; onde queres continuar a estar – que sentes. Sentes-te mais própria. Mais tu. Esmagas-te contra um corpo distinto, mas uma alma que te canta o (não) espaço. O lugar de saberes-te ali. De saberes-te abraçar e abraçada. De deixares sentir. E ser o abraço de quatro braços num carinho só.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Sou-me livre a saber-me presa a ti
Estou a ver-te passar. Apetece-me correr; saltar em tua direcção: não é apropriado. Os olhos confundem-se com o céu – estou além do real. Fico a controlar a excitação do coração. Há todo um descontrolo que não se sabe promissor. É no enigma que cresce o sorriso. Está um sorriso nos lábios que te querem. Querem fazer-se teus. Num toque. Num simples toque. De mãos. De olhares. De corpos. Um toque que me faz mais gente. Que me faz mais tua gente. E sou-me livre a saber-me presa a ti. Livre: voo na magia. Naquele raio de luz que me incide. E há mais a lua. E aquele escuro que me adormece. Embalo no pensamento. Desenham-se as últimas lembranças e os últimos desejos. Antes de fechar a vida - de apagar as imagens do consciente – dou-te um beijo na face. Sinto-a perto. Sinto-te comigo: no caminho que estou a percorrer.
Alma (muda) aos berros
Há a ventoinha que me refresca. Que me limpa o suor dos olhos. Sinto o vento levar-me. Torno-me funda. Algo rodopia em mim: uma angústia que me enforca o sonho. O coração perturbado: não sabe não se pertencer/ ser. Há o pensamento que olha da janela. E está o momento a ser queimado. Sente-se o fogo matar-me aos poucos. Cai a electricidade. Eu despenho-me com ela. Fica a alma (muda) aos berros. Fica o fado a nascer-se pela voz.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Só ao ser-te me sou
Beijo-te como quem beija o mundo. E saboreio cada pedaço de luz. Sei-te meu nos teus braços: ouço-te a voz do coração falar de mim. Cheiro essa sinceridade e ouço-a em ti. Tudo mudou de novo. Pensei que as cores não podiam ser alteradas: tornaste-as mais intensas. Mudaste-me a íris. Agora vejo-o por ti: o mundo. Vejo-o com os teus olhos e é tão mais meu. Sentada no chão sinto em plenitude o que fui – tornou-se longínquo. És-te em mim. Porque só ao ser-te me sou. Agora o “me” não é meu, é teu. Já não o sou sozinha. Não sou apenas aquele eu. Aquele meu eu. Sou este teu eu. O espelho reflecte na tua luz o meu rosto. Misturamo-nos na constância do amor. De amar. Sei (hoje) amar-me. Porque te amo. E tu amas-me. Hoje eu amo-(me)-te. Só assim será para sempre.
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