Sento-me
na esplanada a ver as pessoas; e vejo o mundo.
Não
é cada ser uma própria entidade individual? Uma infinidade de pensamentos;
emoções impossíveis de entender.
Sim:
só temos a capacidade de as reconhecer. Entender requer que o outro seja capaz
de a alcançar: experienciar – ninguém consegue viver a emoção de outrem.
Então
observo:
Aprendo.
Vejo
as mãos dadas. Os sorrisos de felicidade. Os olhares de quem se perde na pressa
da rotina. Vejo mundos a cruzarem-se, desconhecendo-o.
E
sei-me vivo.
Uma
criança vê-me e sorri. Sorrio com ela, quase como se fosse uma extensão de mim.
Devolvo o sorriso ao vento, que o carrega.
E
sei-me vivo.
Nasço
em cada partilha.
Em
cada pedaço que toca e se é tocado. Naquilo que não era, mas passou a ser. Pelo
facto de alguém o permitir existir. De o assumir.
Assumo-me,
logo vivo.
Dou
um golo na água pedras de limão, fresca, que pedi ao empregado há dez minutos.
Sinto o gelo descer pela garganta e o corpo descontrair da onda de calor que
enche a esplanada.
E
sei-me vivo.
Olho
as mãos que transpiram. Recordo as inúmeras vezes que me senti deslizar, que
tentei fugir; bem pela palma da minha mão. Fazendo-me inconsciente da minha
consciência. A tentar não me ser.
Aí
ia morrendo - estava no precipício.
Encontrei-me
ao perder-me.
E
sei-me vivo.
Comecei
a viver quando me apercebi.
Isso
mesmo: simples assim.
Comecei
a viver desde que aprendi a dizer “não”. Desde que afirmei, com os pés minúsculos
colados um no outro, que não gostava; que não queria.
Vivo
desde quando reconheci as próprias ações. Quando comecei a distinguir o bom do
mau.
Quando
as lágrimas no rosto de alguém eram, na verdade, as minha também.
E
soube-me vivo.
Vivo
desde que senti.