domingo, 23 de fevereiro de 2014

Abandono


É o coração que orienta as tuas ações. O sangue que impulsiona os movimentos corporais. E está a mente como moderadora dessas consequências. Procura-se o equilíbrio, mas, na verdade, encontramo-nos sempre mais no desequilíbrio. É aí que nos percebemos limitadores dos nossos atos; dos nossos sonhos. A vida resume-se aos momentos de decisão. Aos caminhos que escolhes percorrer consoante as crenças. Os princípios que regem a direção do teu olhar. E há momentos que duvidas de tudo aquilo que já fizeste. De tudo aquilo em que acreditas. De tudo o que és. É aterrorizante essa sensação de abandono de ti mesmo: da tua vida. Esse ser livre de tudo aquilo a que se prendeu. Dos abraços que retiraram de ti um pouco da alma. Aquele amor de pertença. A sensação permanente de preenchimento.

-Sabes que estarei aqui para sempre, Mara.

Aquela promessa! Falhas não para com ela, mas para contigo. Já não sabes o que és. Como podes garantir essas palavras que foram ditas por um outro? Um outro eu que, agora, desconheces?
Olhas o espelho e nada reflete. Um rosto expressivo de alguém que nunca viste. Uma alma perdida num corpo sem orientação. Sentes os passos de corrida (interiores) mas manténs-te estático. Observas tudo o resto e tudo move. Nada espera por ti. Nada esperará se não decidires avançar. Aí tentas! Nada se rende. Nada se entrega. Percebes que és tu que fazes o que és. E não o mundo - porque esse nem se lembra de ti quando tu te esqueceste.
Toca-me aquela mão sobre o fim das minhas costas.

-Eu estarei sempre aqui até mesmo quando tu já não quiseres que eu esteja. Mesmo que tu não saibas mais quem somos. Eu sei que fomos. E isso já é parte da nossa existência.

Agarrei-a com força e tudo voltou ao seu lugar. Não era que eu só soubesse ser com ela. Mas era ela que me devolvia à realidade. Que expelia os sentimentos de loucura.
As sombras de quem somos quase que nos sugam. Ela é a luz que não me permite ir. Que não me abandona para o ser mais obscuro de mim.