Explica-me como alguém
se consegue recompor depois de uma perda a que deste tudo. Depois da
entrega. Diz-me como és capaz de te reestabelecer. Eu já tentei: eu
continuo a tentar – mas parece que nada adianta. Os teus olhos e o
teu perfume levam-me de volta a ti. A todo o sonho que foi possível
numa realidade perdida. No engano de atos. Sinto-me a afundar mais e
mais. A pouco e pouco. Sem respirar. E uma parte de mim já está
habituada: acostumada a esta morte de olhar. A sentir-se cada vez
mais em estilhaços. A quebrar-se em milhões de seres que não
sofrerão restauro. Estou a ser-me num eu que não era. Num eu que
teve de aprender a ser assim. Longe do sonho do coração. E não
percebo como é possível ainda desejar-te tanto. Como é que depois
de tudo que nos aconteceu (que me aconteceu) te consigo amar com
todas as minhas forças. Tira-me de mim.

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