Os gritos desfiguram a raiva: aliviam a voz arranhada de desespero. Os sorrisos arrepiam as lágrimas. Os sonhos embelezam as nossas vidas. É suspeito se isto tudo realmente existe; se nós realmente existimos. O mundo é derivado do conjunto de letras “s” e “e”, que formam o “se”. Esse “se” carrega a envergonhada importância de nos fazer acreditar que tudo pode ser possível. Mas talvez não possa: talvez, nada possa. As vírgulas são as pausas para as nossas pequenas respirações que quase são afogadas pelo desespero de nunca podermos parar. O ponto e vírgula são os segundos que nos dão lugar a pensamentos mais profundos e nos fazem continuar a cavalgar pelas ondas da esperança. Os travessões são os momentos em que nos pomos em segundo plano e tentamos reviver aquilo que nunca mais pode ser vivido; o momento em que verificamos em que consistiu o nosso passado: a nossa vida. Os parênteses são o enterro do tempo; a liberdade das nossas enraivecidas perguntas. Os dois pontos são a conclusão de que - de uma forma equívoca - temos de continuar em frente. E por fim, o ponto final é o encerramento da nossa história: da nossa existência. O fim das nossas dúvidas e, quem sabe, o lugar ao esclarecimento. Por isso - até que o nosso ponto final não chegue -, vivemos na ilusão; nos segredos do mundo. Tudo é um mistério e ninguém sabe aquilo que vem em seguida. Caminhamos numa corrida medrosa. Porque não temos tempo de voltar à partida, ou desistir dela. Não podemos desistir de nascer.

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