quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Vivo

Sento-me na esplanada a ver as pessoas; e vejo o mundo.
Não é cada ser uma própria entidade individual? Uma infinidade de pensamentos; emoções impossíveis de entender.
Sim: só temos a capacidade de as reconhecer. Entender requer que o outro seja capaz de a alcançar: experienciar – ninguém consegue viver a emoção de outrem.
Então observo:
Aprendo.
Vejo as mãos dadas. Os sorrisos de felicidade. Os olhares de quem se perde na pressa da rotina. Vejo mundos a cruzarem-se, desconhecendo-o.
E sei-me vivo.
Uma criança vê-me e sorri. Sorrio com ela, quase como se fosse uma extensão de mim. Devolvo o sorriso ao vento, que o carrega.
E sei-me vivo.
Nasço em cada partilha.
Em cada pedaço que toca e se é tocado. Naquilo que não era, mas passou a ser. Pelo facto de alguém o permitir existir. De o assumir.
Assumo-me, logo vivo.
Dou um golo na água pedras de limão, fresca, que pedi ao empregado há dez minutos. Sinto o gelo descer pela garganta e o corpo descontrair da onda de calor que enche a esplanada.
E sei-me vivo.
Olho as mãos que transpiram. Recordo as inúmeras vezes que me senti deslizar, que tentei fugir; bem pela palma da minha mão. Fazendo-me inconsciente da minha consciência. A tentar não me ser.
Aí ia morrendo - estava no precipício.
Encontrei-me ao perder-me.
E sei-me vivo.
Comecei a viver quando me apercebi.
Isso mesmo: simples assim.
Comecei a viver desde que aprendi a dizer “não”. Desde que afirmei, com os pés minúsculos colados um no outro, que não gostava; que não queria.
Vivo desde quando reconheci as próprias ações. Quando comecei a distinguir o bom do mau.
Quando as lágrimas no rosto de alguém eram, na verdade, as minha também.
E soube-me vivo.

Vivo desde que senti.

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