Poema (ouço) na tua voz. Tenho todas as palavras que não
estão ditas encravadas no coração. O silêncio corta-me o ar. Fico presa àquelas
paredes que me esmagam. Recordo-me da cama: do cheiro dos lençóis. Do meu corpo
quase a cair sobre o teu. Daquela entrega que se fazia. E eu sabia que o queria
mais que tudo. Sentia os nossos corpos gritarem um pelo outro. Sentia o coração
pertencer-se pela primeira vez. E estava louca por ti como nunca senti que
poderia estar. Derrubei o muro dos medos e dei-te o sabor dos meus lábios.
Compreendi o porquê de me render ao teu olhar. Ele é a profundidade da tua
alma. E tivemos as mãos a sentirem todo o nosso ser. A honestidade ditava os
toques. E no respirar sentia que não me querias soltar. Arrepiava-me a sensação
de ser demasiado doloroso afastarmo-nos. Ao inspirares-me o cabelo percebi que
me arrancavas a essência. Sabia que me possuías com ânsia. Os teus braços
prendiam-me como se me quisesses ter agarrado já ontem. E eu sentia-te sem
pensar onde aquilo nos levaria. Tínhamos deixado de pensar: escolhido ser. Pela
primeira vez desde sempre permitimo-nos sentir: sermo-nos.
Hoje olho-te e tudo parece uma mentira. Mata-me a indiferença
que retribuis das minhas ações. Sinto-me a gelar e sei que não sou capaz de
recuperar. Passam os luares que tanto amava e agora espelha-se a solidão das
lágrimas. Sangra (todos dos dias) a separação que se fez. Tento sorrir para
enganar a sociedade que me cerca. Tento ser-me, mas levaste a alegria que foi
em ti que abracei. Fiquei sem os suspiros que te admiravam. Ficou no olhar a
incompreensão. E no rosto permanece a dor de quem já não aguenta sentir-se tão
pequena por gostar-te tanto.
Sei que mergulhei fundo demais. E já não consigo voltar à superfície.
Não agora que não estás lá para me alcançar.
Arde o que os outros viam: o poema.

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